Um novo sistema monetário internacional – Parte 1 de 2

Um novo sistema monetário internacional

[Wim Dierckxsens e Walter Formento] Os países que formam os BRICS, com a China e a Rússia à cabeça, lançam outra iniciativa que se soma à já tomada em Maio de 2017, mas agora colocam a disputa no terreno mais importante, no esquema da moeda de câmbio e reserva mundial.

A moeda que colocam é o petróleo-yuan-ouro. Um esquema de moeda mundial não só apoiado na commodity (matéria-prima) mais importante, o petróleo, mas também por constituírem a economia mais dinâmica do mundo com capacidade real para lutar com o petrodólar e um esquema económico-estratégico universal, multipolar, com capacidade de confrontar o globalismo financeiro.

Claro que a sua vantagem não radica apenas no facto de ser o esquema das economias mais dinâmicas, mas também de, além disso, serem grandes produtores e compradores de ouro que já criaram umas gigantescas reservas para apoiar o yuan nesta movimentação que, por si só, não poderia avançar e impor-se. O ouro, o reconhecimento pelo FMI do yuan como moeda internacional em Outubro de 2016, o terem desenvolvido todo um sistema de instituições financeiras na City de Londres, o que lhe permite colocarem não só o yuan como moeda, com o petróleo e o ouro como apoio, mas também usar o dólar como instrumento no caminho para a viabilização e desenvolvimento do mecanismo, o que facilita a utilização das reservas de dólares em títulos do Tesouro dos EUA (mais de um bilião de dólares) para impor o mecanismo e debilitar as manobras da FED contra o novo esquema de moeda internacional.

A tudo isto, acresce que o yuan multipolar dos BRICS já está criado e apoiado por um cabaz de moedas e numa nova arquitectura financeira (com o seu fundo de fomento e desenvolvimento, o seu banco de financiamento e o seu sistema de compensações alternativo ao SWIFT), onde apenas falta que se lhes juntem os EUA e o Japão. A tudo isto acresce também a nova arquitectura produtiva-comercial da nova rota-da-seda (OBOR) e a sua iniciativa de 500 mil milhões lançada em 14 de maio de 2017.

Por tudo isto, é muito importante o que acontece em África, na América Latina (Brasil, Argentina, Venezuela, Colômbia, México, etc.) e também na Europa, com a consolidação da UE como potência continental que olha para Este e os BRICS, no meio do desenvolvimento da crise do Brexit, com um globalismo financeiro comprovado na City de Londres e, agora, apoiado na City de Paris e no governo pró-globalização de Macron; na criação de massivas migrações orientadas a partir da NATO e das suas forças irregulares (ISIS/EI) etc.; na capacidade da massiva produção/destruição, na subjectividade política e ideológica das plataformas globais de comunicação em rede, actuando com indivíduos através do manejamento dos Big Data que, com o seu contínuo bombardeamento ao eurocepticismo local, fragmenta o continental e apenas alimenta o nada-global como saída, o que pode ser captado pela rede de Citys financeiras, que operam através dos bancos centrais e dos seus governos de elites tecnocrático-financeiras não eleitas pelos povos.

É aqui que se observa a importância da consolidação do núcleo continental de poder na EU, constituído pela Alemanha/França/Itália, e sustentado na produção industrial/científica e tecnológica com justiça social. Por isso, as eleições em toda a UE, na Alemanha e França têm tido uma conotação e importância superlativa.

E as leituras das propostas eleitorais em termos de esquerda social-democrata (agora aprisionada na sua cúpula pelas oligarquias globais) e da extrema-direita fascista (que atrai a burguesia e os pequenos empresários de escala local-nacional) promovida pelas plataformas de comunicação, pelos atentados terroristas da NATO/ISIS e outros instrumentos recuperados da Segunda Guerra mundial e financiados pelo dinheiro global do crime organizado e administrado pelos bancos, são mais prejudiciais que nunca, e apenas empolam o globalismo neoliberal e socio-liberal.

O centro-direita, que já é uma oligarquia continental que se expressa na relação de confronto das instituições da União Europeia, e já não como um nacionalismo em transição para a consolidação, atravessa uma crise e ainda não construiu legitimidades sociais.

Do petrodólar ao petro-yuan

Na última conferência dos BRICS, a China e a Rússia revelaram que vão usar entre si um novo esquema de moeda: o petróleo/yuan/ouro. A China, como primeiro importador mundial de petróleo, está a avançar na preparação e assinatura de contratos de futuros, para comprar petróleo em yuans chineses convertíveis em ouro. Para tornar o contrato em yuans mais atractivo, a China prevê fazer com que o yuan seja totalmente convertível em ouro antes do fim de 2017. A fixação dos preços do petróleo em yuans – juntamente com o plano da Bolsa de Valores de Hong-Kong para vender contratos de ouro físico cotado em yuans – criará um sistema através do qual o país poderá eludir o sistema bancário estado-unidense e não só o sistema Swift como, inclusive, o próprio sistema de Bretton Woods. Os países que vão ver-se mais imediatamente beneficiados por esta revolução são, naturalmente, aqueles aos quais foram impostas sanções ocidentais como a Rússia, o Irão e a Venezuela.

Em 20 de Setembro, Vladimir Putin deu instruções para que em finais de 2017 o dólar deixe de ser a moeda de pagamento em todos os portos do país. Na mesma data o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro anunciou que o seu país deixaria de lado o dólar como moeda de pagamento na compra de petróleo, como contrapartida das sanções impostas pelos EUA ao seu país. Com as maiores reservas provadas do mundo, a Venezuela decide avançar na utilização do yuan como moeda de pagamento do crude. A empresa venezuelana de petróleo PDVSA já começou a cotar o seu preço e a manter as suas contas em euros, pondo o dólar de lado.

O Irão e a Venezuela sofreram particularmente com a sua exclusão do sistema de pagamentos internacional em dólares, o que os impediu de investir de modo significativo em infra-estruturas. Como contrapartida, a China favoreceu estes produtores de petróleo, aceitando que vendam a sua mercadoria em yuans, fora do esquema petróleo-dólar. As políticas de sanções e boicotes dos EUA não conseguiram outro resultado que não fosse orientar e empurrar estes países para a opção do multipolarismo. O Irão, a Rússia e outros produtores de petróleo mais pequenos, como Angola e a Nigéria, já vendem petróleo e gás à China em yuans. Nos últimos dois anos, o Qatar transaccionou mais de 86 mil milhões de dólares em yuans. O Qatar, sunita e pró-ocidental, inclina-se para o Irão e a China e até um dos Emiratos (Sharjah) já tem previsto emitir títulos em yuans.

Também grande parte de África se comprometeu com a introdução do yuan como segunda moeda de reserva de referência. Em concreto, o Gana, a Nigéria, as Ilhas Maurícias, o Zimbabwe, a África do Sul e Angola já introduziram o yuan entre as suas moedas de reserva. A única coisa que impede o Japão e a República da Coreia de aceitar o yuan como moeda de câmbio é a crise montada à volta da República Democrática da Coreia.

Tudo isto prenuncia o momento da «queda» ou morte do petrodólar.

Hoje, em termos de produção de gás e petróleo juntos, os EUA são um grande concorrente do seu histórico (1970-2015) aliado estratégico, a Arábia Saudita, e por isso reduziu a sua importação de 14 milhões de barris por ano em 2007 para 8 milhões em 2017. Também a Rússia diminuiu as importações do petróleo saudita. Perder nesta conjuntura o cliente chinês significaria para a Arábia Saudita ficar com um gigantesco excedente de produção, o que provocaria um trambolhão das suas receitas. O rei Salman da Arábia Saudita pôs de lado o príncipe bin Naif da linha de sucessão a favor do príncipe bin Salman, conhecido pelo seu diálogo fácil com a Rússia e a China.

Para a Arábia Saudita, aceitar o pagamento de petróleo em yuans significa arriscar-se a perder a «protecção» militar dos Estados Unidos. Daí, podemos ver quanto pesará este argumento no momento de tomar a decisão de optar pelo yuan. É já claro que a opinião pública internacional não estará do lado da Arábia Saudita se esta se comprometer com os EUA num conflito directo com o Irão. Por isso, não é estranhar que se esteja muito perto de um fundo de investimentos chino-saudita ou da decisão de compra de 5% da empresa petrolífera Saudi Aramco. As evidências amontoam-se e fala-se da anunciada morte do petrodólar.

Do petro-yuan ao petro-yuan-ouro

A China anunciou que lançará no final de 2017 o esquema do câmbio petróleo-yuan-ouro, facto que mudará o sistema monetário internacional. Todos os exportadores de petróleo para a China terão primeiro de aceitar a moeda chinesa, o yuan apoiado no ouro, a troco de petróleo. Como incentivo, os chineses oferecem trocar os yuans recebidos por ouro, contra a entrega de petróleo. Os exportadores de petróleo, no entanto, poderão retirar estes títulos de ouro da China, isto é, o petro-yuan estará convertível nos chamados «Bullion Banks» em Londres. Estes terão de entregar ouro aos exportadores de petróleo a troco dos títulos em yuans recebidos.

Os “Bullion Banks” são entidades financeiras que controlam o preço do ouro através da venda de contratos a prazo (ouro em papel). Os ditos contratos comprometem a entregar a determinado preço. Os especuladores costumam comprar os ditos contratos e aspiram um lucro em dólares nas suas apostas, esperando que o seu preço suba, mas também não têm nenhuma intenção de entregar fisicamente ouro. É de supor que os “Bullion Banks” também não tencionem aceitar certificados em yuans a troco da entrega de ouro físico aos exportadores de petróleo.

Pelo que é provável que os “Bullion Banks” cambiem primeiro os certificados em yuans por dólares. Como a China é o principal possuidor de títulos do Tesouro dos EUA, o Banco da China será seguramente o fornecedor destes dólares. Com o objectivo de reduzir as suas enormes reservas internacionais em dólares, este banco aceitará os yuans a troco de dólares. Os “Bullion Banks” oferecerão aos exportadores de petróleo contratos futuros em dólares (ouro em papel) em vez de fisicamente ouro, numa operação que matará dois pássaros com um só tiro. Os exportadores de petróleo para a China obterão os seus contratos em futuros de ouro em Londres e a China conseguirá desfazer-se das suas enormes reservas em dólares, cujo valor futuro se está para ver.

A crescente quantidade de futuros de ouro a que os “Bullion Banks” se comprometem gerará uma pressão sobre o preço do ouro que, obviamente, terá que ter uma alta com essa procura. No passado, para os detentores de “ouro em papel” foi muito difícil conseguir um entrega efectiva de ouro físico. No entanto, quando o esquema chinês começar a funcionar o cenário poderá realmente mudar, já que surgirá uma situação que os gestores dos ditos bancos nunca viram antes, acostumados como estão a manipular o preço do ouro para baixo.

É um dado de facto que a quantidade de petróleo importada pela China é enorme. A China não só é o primeiro produtor mundial de bens e serviços com o maior PIB Paridade (17 biliões), como também é o principal importador de petróleo, com oito milhões de barris/dia. Só a Arábia Saudita exporta um milhão de barris de petróleo por dia para a China e actualmente ainda o faz em dólares. No dia em que a Arábia Saudita receba yuans convertíveis em ouro para a entrega de petróleo, estamos a falar (a um preço de 50 USD por barril) de 50 milhões de dólares por dia ou 1.183 toneladas de ouro que este país, diariamente, reclamará retirar do mercado de ouro em Londres. Isto representa uma procura de 431,8 toneladas de ouro por ano.

Mas a Arábia Saudita não é o único país em jogo, já vimos que há outros grandes exportadores de petróleo e gás, como a Rússia, o Irão e recentemente também a Venezuela. Estes países deixarão de utilizar o dólar como moeda de câmbio para passar a vender petróleo em yuans. Com esta oferta conjunta fora do esquema petróleo-dólar, combinada com a oferta de gás e petróleo de todos os outros países exportadores para a China a troco de cada vez mais yuans, estamos a falar de, a partir de 2018, haver uma procura de ouro de mais de mil toneladas por ano.

Quando os yuans na posse dos exportadores petróleo chegarem aos “Bullion Banks”, estes primeiro trocá-los-ão por dólares, moeda em que funciona o mercado do ouro em Londres. Com uma procura de ouro em forte crescimento, o preço do ouro físico terá inevitavelmente uma subida, e isto será em dólares. Este aumento significa que se entregará menos ouro físico pelo mesmo barril de petróleo.

Quando os exportadores perceberem a tendência para a baixa na relação ouro-petróleo rapidamente aumentarão a sua oferta de petróleo a fim de obterem um melhor preço agora do que se o entregarem mais tarde. Como é costume, todos os exportadores farão o mesmo, o resultado será que em pouco tempo se observará que o preço do ouro físico disparará em termos de dólares. Dito de outra maneira, o dólar sofrerá uma desvalorização em termos de ouro, mas não em relação ao yuan.

A China tem actualmente enormes reservas de ouro físico para apoio da sua moeda, cujo valor disparará quando o dólar desvalorizar. Em contrapartida, é evidente que os EUA depois de 45 anos – 1971-2017 – do dólar como moeda mundial (o chamado petrodólar) já não dispõem das reservas de ouro que tiveram no passado, assunto que abordámos em trabalhos anteriores.

Por outras palavras, o dólar está em recuo perante o claro avanço do “petro-yuan-ouro”. Na realidade não se trata de uma nova petro-moeda mas de um outro esquema de moeda mundial dominante: o petro-gás-ouro-moeda. Estes factos e o seu impacto compõem o panorama do fim do dólar e da sua movimentação, agora ainda como moeda dominante de referência internacional, juntamente com o conjunto de instituições associadas à velha arquitectura, primeiro do ouro-dólar (1944-1971) e depois do petrodólar (1971-2017). Será por isso o acto fundacional do mundo multipolar do século XXI, a unidade de medida da magnitude do poder mundial, tal como o foram os acordos de Bretton Woods, quando os EUA impuseram o padrão ou esquema de moeda mundial de câmbio dólar-ouro, o que implica, agora, institucionalizar o esquema que substitui o dólar e os poderes financeiros que acumulam valor/poder a partir dele.

Fim da 1a parte.

 

Continua…

gz.diarioliberdade.org


 

Be Sociable, Share!

URL curta: http://navalbrasil.com/?p=256953

Publicado por em dez 2 2017. Arquivado em 3. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

Deixe uma Resposta

CLIQUE ACIMA PARA RECEBER COMENTÁRIOS POR E-MAIL. ATENÇÃO: AO COMENTAR, UTILIZE UM E-MAIL ÚTIL - COOPERE COM NOSSO TRABALHO.

CLIQUE SOBRE AS NOTÍCIAS