Quem faz o que na Síria e por quê? Parte 2 – Final

 

Continuação: Parte 2 – final

Os EUA: Apesar de tudo que os EUA fizeram no apoio inicial ao ataque Saudita/Qatari/Turco contra a Síria, só conseguiram derrota após derrota. Se algum dia houve momento nos últimos sete anos para os EUA lançarem grande ataque contra a Síria, foi quando do ataque forjado, com armas químicas, apresentado como se tivesse sido cometido pelo Exército Árabe Sírio em Ghouta Ocidental. Mas Obama não caiu no golpe orquestrado pelos sauditas. Se há decisão política pela qual Obama deva ser lembrado positivamente quando toda a poeira afinal baixar, será aquela sua decisão de não atacar a Síria no início de setembro de 2013. Mas os EUA de Trump herdaram uma Síria na qual os norte-americanos não têm nem presença nem influência. A nação decadente não quer ser vista como inerte, sem reação contra essa realidade.

Rússia:  O papel da Rússia foi deixado para o final dessa reflexão, para poder enfatizar mais uma vez como já em outros artigos, que o papel da diplomacia russa está-se tornando mais e mais importante a cada momento na Síria e no Levante em geral. Para poder ver no contexto adequado tudo que se disse acima, é preciso lembrar que está em curso uma guerra no sul da Síria, e que tem pouco a ver com a outra, que se trava no norte; e só a Rússia tem potencial para enfrentar o conflito.

Não há nem rastro de dúvida, para mim, de que a Rússia tem um plano de paz para o Oriente Médio. Não tenho dúvidas tampouco de que a Rússia quer catapultar os EUA para bem longe do papel de negociador de conversações de paz no Oriente Médio. Afinal, os EUA permaneceram nessa função por mais de 40 anos, sem marcar qualquer ponto no tabuleiro. Não se deve esquecer que, apesar de todas as concessões que os líderes da OLP fizeram a Israel, os EUA nem assim conseguiram (supondo que tenham tentado) oferecer qualquer paz à Palestina, tampouco a Israel, é claro.

É altamente provável que até Israel já esteja farta das promessas de paz que os norte-americanos sempre repetiram e nunca cumpriram. A paz que os EUA prometeram a Israel sempre dependeu de os EUA esmagarem o Eixo da Resistência e plantarem em lugar dele governos-fantoches desdentados, que dançassem conforme a música dos EUA; com os norte-americanos obrigando-os a normalizar relações com Israel e a acabar com as ameaças contra a entidade sionista, hoje e para sempre.

Nesse quadro, a Rússia está fortalecendo sua posição no Oriente Médio, preparando-se para o momento de aparecer já como potência aceita por todas as partes envolvidas e único árbitro capaz de realmente construir acordo de paz amplo e inclusivo que atenda aos interesses de todos. Todo o resto é encenação. A recente escalada da guerra entre Síria e Israel não é prelúdio de guerra maior. Ninguém quer guerra; não agora, com todos dramaticamente conscientes do dano que qualquer guerra atrairá sobre eles mesmos e a região. Israel continua sondando as águas, testando as capacidades de defesa dos sérios e, principalmente, testando a paciência dos russos e sua determinação na missão de construir real equilíbrio estável de poder no Oriente Médio. Alguns árabes se sentirão desapontados por a Rússia não permitir a total destruição de Israel, mas a Rússia nunca prometeu isso.

Por outro lado, contudo, a Rússia está empurrando Israel na direção de ser realista, e nunca prometeu a Israel qualquer apoio incondicional como fizeram os EUA, desde os dias de Kissinger. Cabe a Israel se autoproteger contra os foguetes do Hezbollah, o que a Rússia não pode fazer por Israel. Em nenhum caso a Rússia iniciará guerra total nem contra a Síria nem contra o Hezbollah nem contra ambos. E sem esquecer a presença iraniana em solo na Síria, muito próximo das fronteiras de Israel. Israel tem de aceitar que as regras do jogo mudaram; ou encarar uma escalada que custará danos gravíssimos à infraestrutura e aos cidadãos israelenses.

A recente derrubada de um jato F-16 israelense pelas defesas aéreas sírias e a subsequente visita que Netanyahu fez ao presidente Putin é sinal claro de que Israel não está contente com o fornecimento de armas russas à Síria – e que sabe de que esse movimento dos russos está mudando o equilíbrio de poder. Exame atento a eventos recentes verá necessariamente que a Rússia ainda tenta trazer Israel para conversações de paz baseadas num equilíbrio regional de poder. Mas Israel ainda não está convencida de que essa solução interesse a Israel, porque ainda não se convenceu, sequer, de que perdeu o controle militar que foi sua única força objetiva.

Por outro lado, também é difícil para a Rússia convencer Síria, Hezbollah e Irã de que devem buscar a paz com Israel. E os EUA vão-se convencendo de que não têm presença na guerra no sul. Então se põem a usar o pretexto dos curdos para tentar ter ‘uma’ (qualquer!) presença no norte para evitar o pior: acabarem de fora de qualquer tipo de acordo que os russos consigam. Erdogan faz sua parte para impedir que se crie um Estado curdo na Síria.

Exceto por isso, não tem qualquer papel a desempenar no conflito no sul. No final do drama, os EUA apunhalarão os curdos pelas costas como já fizeram incontáveis vezes, o sonho independentista dos curdos será atrasado outra vez por muitas décadas, todos verão que o verdadeiro foco do conflito estará no sul. E chegará a hora de conhecer o plano de paz ainda não revelado dos russos e o papel que realmente cumprirão na reorganização do Oriente Médio.*****

Traduzido por Vila Vudu

Ghassan Kadi, The Vineyard of the Saker


 

URL curta: http://navalbrasil.com/?p=257626

Publicado por em fev 17 2018. Arquivado em 4. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

Deixe uma Resposta

CLIQUE SOBRE AS NOTÍCIAS