Quem faz o que na Síria e por que? – Parte 1 de 2

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Parece que cada vez que chega ao fim um capítulo na guerra contra a Síria, novo fator vem à tona. Como aconteceu antes na guerra civil 1975-1989 no Líbano, e que começou com um confronto entre a Organização de Libertação da Palestina, OLP, e a milícia falangista libanesa de direita, e acabou com o Líbano invadido por Israel, a guerra contra a Síria é hoje guerra completamente diferente da que começou há sete anos. Com outros que vieram e já foram ou tiveram alterado o papel que lhe cabia na guerra, o único ator que continua aqui e não muda é, claro, o Exército Árabe Sírio, combatendo sempre pela integridade e a soberania da Síria. Nem se pode dizer o mesmo dos aliados, porque também os aliados do EAS mudaram.

Há muita especulação quanto a eventos recentes, muita guerra e propaganda para gerar medo, mas se se dissecam todos os elementos das potências que combatem hoje na Síria e se os analisamos, vemos claramente e sem dificuldade o que está acontecendo e quem está fazendo o que. Antes de tentar compreender quem está fazendo o que e por que, comecemos por listar os principais players em solo e por trás das cortinas, desde o início e hoje. Eis uma lista curta:

  1. Síria, claro
  2. Arábia Saudita
  3. Qatar
  4. Curdos
  5. Turquia
  6. Irã
  7. Hezbollah
  8. Israel
  9. EUA
  10. Rússia.

Inobstante o papel continuado e a presença inevitável da própria Síria e das forças nacionais populares sírias aliadas na guerra contra o próprio país, é preciso reconhecer que Arábia Saudita e Qatar já desempenharam seu papel e saíram como derrotados. Com vistas à documentação para a história, é preciso deixar isso anotado, mesmo que, hoje, AS e Qatar não tenham qualquer influência ou poder.

Os Curdos têm papel que não pode ser discutido sem registrar o que fizeram entre 2011 e 2015-16. Combatentes curdos, separatistas ou outros, defenderam a integridade da fronteira norte da Síria no início, já em 2011, quando o Exército Árabe Sírio não tinha aliados em solo. E mesmo que combatentes curdos e soldados do Exército Árabe Sírio não tenham combatido fisicamente dentro da mesma trincheira, os curdos lutaram valentemente no norte, defendendo o solo sírio contra incursões que os turcos facilitavam e, depois, contra o ISIS.

Porém, quando se estabeleceram os movimentos curdos separatistas, e dado que não foram preventivamente abrigados sob o telhado de Damasco, algum lado teria de ceder. Os Curdos separatistas farão qualquer coisa e acordos com não importa quem ou quando, para realizar seu sonho. A história já mostrou que estão preparados para se unir aos norte-americanos e até a Israel. É preciso registrar que há curdos não separatistas, mesmo que não se conheça a porcentagem deles na população, assim como é impossível saber a porcentagem dos separatistas, e os não separatistas parecem não ter voz muito ativa na comunidade. Além do mais, parece que não há visão nacional inclusiva, sob cuja proteção os próprios curdos pudessem discutir e expor qualquer pensamento anti-separatista e arejar as próprias ideias, seus medos e apreensões como minoria, que inspiram o anseio por independência.

O papel da Turquia mudou com as marés ao longo dos últimos sete anos. Desde querer derrubar o governo do presidente Bashar al-Assad da Síria, com Erdogan rezando na Mesquita Omayyad como o conquistador de Damasco, Erdogan opera hoje em modo muito mais contido para controle de danos, na esperança de conseguir, pelo menos, impedir que se constitua um Estado curdo ao sul das próprias fronteiras. O vai e vem da guerra, e o pedido de desculpas a que foi obrigado, na luta para se reconciliar com a Rússia depois de a Turquia ter derrubado um Su-24 russo em novembro de 2015 puseram Erdogan na posição em que está.

Mas Erdogan, islamista e nacionalista compulsivo, sempre tentará procurar oportunidades e aberturas, e não vacilará em apunhalar qualquer um pelas costas, porque seus sonhos de um sultanato muçulmano com base na Turquia são maiores que qualquer negócio ou acordo que ele assine com seja quem for. Isso posto, Erdogan em nenhum caso aceitará solução que implique o estabelecimento de um Estado curdo. A menos que a maré vire a favor dele, é altamente improvável que venha a mudar de rota e exigir mais. Verdade é que a guerra no norte da Síria é quase completamente separada da guerra que se trava no sul, com Israel.

Irã: O teatro sírio pôs o Irã fisicamente mais perto de Israel, de modo tal que abriu uma nova fronteira maior que a que o Hezbollah tem no sul do Líbano. Israel não tem privilégio recíproco. Assim, embora a presença de Israel não seja oficialmente reconhecida nos Estados do Qatar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, não há praticamente qualquer dúvida de que a costa oriental do Golfo Persa/Árabe está sob controle direto ou indireto de israelenses em mais de um sentido.

Deve-se lembrar contudo que a questão que o Irã tem contra Israel é doutrinal, não é territorial. Em resumo, a presença militar do Irã na Síria tem tudo a ver com o tratado de mútua defesa Irã-Síria, mas também visa a proteger interesses do Irã e a estabelecer presença militar e capacidades para lançamento de foguetes que estão a poucos quilômetros de importantes cidades israelenses, situação muito diferente da distância de praticamente mil quilômetros que separa Israel do Irã e mesmo das poucas centenas de quilômetros que separam a costa leste do Golfo Persa/Árabe das cidades do sul do Irã.

Dado que o Irã não é potência nuclear, e Israel sim, considerando o que se disse acima, qualquer confrontação militar convencional com Israel porá o Irã numa posição de vantagem. O status do Irã na Síria não pode ser visto nem como ofensivo nem como defensivo vis-à-vis Israel. Parece ser mais provavelmente defensivo, e é pouco provável que o Irã venha a usar suas posições na Síria pra iniciar ataque não provocado a Israel, dado que Israel sempre contará com a força de contenção de seu arsenal atômico.

Hezbollah: Em vários sentidos, falando em termos ideológicos, o Hezbollah é uma extensão do Irã. Mas falando em termos estratégicos, o Hezbollah é parte do processo político libanês. Mas a questão do Hezbollah com Israel e doutrinal e também territorial. O Hezbollah foi para a Síria para defender a Síria, claro, mas ao defender a Síria, o Hezbollah se autodefende e defende o Líbano. As linhas de suprimento para o Hezbollah partem da Síria – o que não é segredo para ninguém.

Mas ainda que o Hezbollah tenha tido de criar rotas alternativas depois de sete anos de guerra, mesmo assim permanece dependente da Síria para garantir a própria sobrevivência em profundidade, bem como sua capacidade de combate. Ainda que o Hezbollah penetrasse ainda mais e conseguisse estabelecer uma base de manufatura militar própria – o que absolutamente não é improvável – mesmo assim permanecerá conectado à Síria em níveis essenciais à própria sobrevivência e à própria continuidade. Ideologicamente, Hezbollah é talvez mais próximo do Irã que qualquer outro aliado, mas estrategicamente não poderia estar mais próximo de qualquer outro aliado que da Síria. Esperar que o Hezbollah ceda à pressão e retire-se prematuramente da Síria é praticamente a mesma coisa que contar com que a Coreia do Norte entregue seu arsenal nuclear.

Israel: Não surpreenderia ninguém dizer que os EUA pós-Kissinger deixaram Israel sentir-se segura e privilegiada a ponto de se pôr a coagir a única superpotência mundial para que carimbasse qualquer coisa que Israel fizesse; ainda que fosse contra os interesses da superpotência. Contudo, nem com todo o apoio que EUA deu a Israel a entidade sionista conseguiu fazer qualquer paz duradoura. Superioridade militar e paz são muito diferentes; os EUA tinham meios para garantir a primeira, a Israel; não a segunda. Mas até essa superioridade militar que no início dos tempos significou que Israel era intocável acabou por ser erodida. A ascensão do Hezbollah ao poder, com capacidade para bombardear “Haifa e além de Haifa” em julho de 2006 causou calafrios aos estrategistas militares de Israel.

Israel agora não tem ideia de o que esperar se e quando houver outra escalada militar com o Hezbollah e hoje se prepara para o pior. Dados os mais recentes confrontos com defesas aéreas sírias, Israel pôs-se em posição semelhante também em relação à Síria, sem saber tampouco o que esperar desse lado.

 

Final da parte 1.

Continua….

Ghassan Kadi, The Vineyard of the Saker


 

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Publicado por em fev 16 2018. Arquivado em TÓPICO I. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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