Pepe Escobar: Porque Rússia e China apavoram Washington?

Unindo os países que o Pentágono declarou serem as principais ameaças “existenciais” para os Estados Unidos, a parceria estratégica Rússia-China não se revela através de um tratado assinado com pompa e circunstância – e uma parada militar.

Por Pepe Escobar, no SputnikNews

 

 

Xi Jinping e Vladímir Pútin, durante o desfile de 75 anos da vitória da URSS na Segunda Guerra Mundial em MoscouXi Jinping e Vladímir Pútin, durante o desfile de 75 anos da vitória da URSS na Segunda Guerra Mundial em Moscou

Mesmo escavando camada após camada de sofisticação sutil, não há como saber a profundidade dos termos acordados entre Pequim e Moscou, nos bastidores dos inumeráveis encontros entre Xi Jinping e Vladimir Putin.

Diplomatas, desde que mantidos no anonimato, ocasionalmente insinuam que uma mensagem em código pode ter sido entregue à Otan quantos ao que poderia acontecer se um desses parceiros estratégicos fosse maltratado seriamente – seja na Ucrânia seja no Mar do Sul da China – a Otan teria que lidar com os dois.

Por enquanto, vamos nos concentrar em dois exemplos de como a parceria funciona na prática, e porque Washington não tem noção de como lidar com a situação.

A prova “A” é a iminente visita que Secretário Geral do Partido Comunista Chinês (PCCh) Li Zhanshu, fará a Moscou, convidado pelo chefe da Administração Presidencial no Kremlin, Anton Vaino. Pequim ressaltou que as conversações girarão em torno – sem novidade – da parceria estratégica entre China e Rússia “como já acordado previamente entre os líderes dos dois países”.

O encontro acontecerá logo depois que o primeiro Vice Premier chinês Zhang Gaoli, uma das sete personagens mais eminentes do Politburo chinês e um dos condutores das políticas econômicas chinesas foi recebido em Moscou pelo Presidente Putin. Na ocasião, discutiram investimentos chineses na Rússia e o ângulo crucial da parceria, a questão energética.

Mas principalmente, estão preparando a próxima visita de Putin a Pequim, que será particularmente espetacular, no quadro do encontro de cúpula Um Cinturão, Uma Estrada (One Belt, One Road – OBOR, em inglês – NT) em 14/15 de maio, conduzido por Xi Jinping.

O Secretariado Geral do PCCh – subordinado diretamente a Xi Jinping – mantém esse tipo de consultas anuais de alto nível com Moscou, e ninguém mais. Não é necessário acrescentar que Li Zhanshu responde diretamente a Xi tanto quanto Vaino responde diretamente a Putin. Mais altamente estratégico impossível.

Estes acontecimentos estão também ligados diretamente ao último episódio ligando Os Homens (de Trump) Vazios, neste caso, o pomposo/trapalhão Conselheiro para a Segurança Nacional, Tte General H R McMaster.

Resumidamente, a tirada de McMaster, alegremente regurgitada pela imprensa corporativa submissa, é que Trump teria desenvolvido uma espécie de “química especial” com Xi depois que, no encontro Tomahawks-com-bolo-de-chocolate em Mar-a-Lago, Trump teria conseguido desmanchar o acordo entre China e Rússia sobre a Síria e isolado a Rússia no Conselho de Segurança da ONU.

McMaster deveria ter dedicado alguns minutos para ler o Comunicado Conjunto do Brics sobre a Síria para se inteirar que o Brics estão dando retaguarda à Rússia.

Não é de se admirar que um observador hindu experimentado se sentiu compelido a observar que “Trump e McMaster parecem dois caipiras completamente perdidos na Metrópole”.

Siga o dinheiro

A prova “B” está centrada no avanço discreto nos acordos entre China e Rússia para substituir o dólar dos Estados Unidos como moeda de reserva por um sistema lastreado no ouro.

A questão envolve também a participação primordial do Cazaquistão – muitíssimo interessa em usar ouro como moeda ao longo da OBOR. O Cazaquistão não poderia estar mais estrategicamente bem posicionado; um ponto central chave da OBOR; membro crucial da União Econômica Eurasiana; membro da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); e não por acaso, o país que funde a maior parte do ouro russo.

Paralelamente, a Rússia e a China avançam com seus próprios sistemas de pagamento. Agora que o Yuan goza do status de moeda global, a China está desenvolvendo o seu próprio sistema de pagamento, o CIPS, cuidadosamente pensado para não antagonizar frontalmente o sistema SWIFT, internacionalmente aceito e controlado pelos Estados Unidos. Por outro lado, a Rússia tem enfatizado a criação de “uma alternativa” nas palavras da presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiulina, na forma do sistema de pagamento Mir – uma versão russa do Visa/Mastercard. O que implica que se os Estados Unidos quiser excluir a Rússia do sistema SWIFT, mesmo temporariamente, pelo menos 90% dos caixas eletrônicos da Rússia serão capazes de operar pelo sistema Mir.

O sistema de cartões UnionPay já está implantado em toda a Ásia – entusiasticamente adotado pelo HSBC, entre outros. Combina um modo “alternativo” de pagamento com um sistema lastreado em ouro em desenvolvimento. Chamar a reação do Federal Reserve dos EUA de “tóxica” é dourar a pílula.

E não se trata apenas de Rússia e China. Estamos falando do Brics

O que o primeiro vice presidente do Banco Central da Rússia Sergey Shvetsov tem sublinhado é apenas o começo: “os países Brics são grandes economias com enormes reservas de ouro e um impressionante volume de produção e consumo do metal precioso. Na China, o comércio de ouro acontece em Xangai e na Rússia em Moscou; Nossa ideia é criar um ligação entre as duas cidades para aumentar o comércio entre os dois mercados.”

A Rússia e a China já estabeleceram sistemas para fazer o comércio global tangenciar o dólar dos Estados Unidos. O que Washington conseguiu fazer com o Irã – expulsar seus bancos do sistema SWIFT – atualmente é impensável contra Rússia e China.

Assim, estamos a caminho, devagar mas com segurança, de um sistema Brics de “mercado para o ouro.” Uma “nova arquitetura financeira” está sendo construída. A iniciativa implica na futura incapacidade do FED (norte)americano de exportar inflação para outros países – especialmente aqueles incluídos no Brics, EEU e OCX.

Os homens vazios

Os generais de Trump, liderados pelo “Cachorro Louco” Mattis, podem tagarelar quanto quiserem sobre a necessidade de dominar o planeta com seus sofisticados comandos Aéreos/Marinhos/Terrestres/Espaciais/Cibernéticos. Ainda assim, não serão suficientes para conter a miríade de alternativas que a parceria estratégica entre China e Rússia está desenvolvendo.

Então, mais que nunca, teremos Homens Vazios como o vice presidente Mike Pence, com sua solenidade prolixa, ameaçando a Coreia do Norte; “o escudo está levantado e a espada está desembainhada”. Esqueça que isso seria uma fala pomposa e entediante mesmo em uma refilmagem barata de filmes B de Hollywood; o que temos é um Pence aspirante a ocupar a Casa Branca ameaçando a Rússia e a China de que pode acontecer alguma questão nuclear séria bem perto das regiões fronteiriças entre Estados Unidos e Coreia do Norte.

Não acontecerá. Apresento o grande T. S. Eliot, que descreveu tudo isso com décadas de antecedência:

“Nós somos os homens vazios / aqueles cheios de palha / amparando uns aos outros / enfeitados e cobertos de nada. Pobres de nós! / Nossas vozes áridas / quando sussurramos todos juntos / são quietas e indefinidas / como o vento na grama seca / ou ratos andando sobre copos quebrados / em nossa adega, hoje seca.”

Blog do Alok. Tradução de B.T. Silveira


 

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Publicado por em abr 27 2017. Arquivado em 1. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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