Os países do BRICS e o Antídoto para as intervenções ocidentais

A África do Sul juntou-se ao bloco no ano passado por causa de seu crescente peso econômico e papel de liderança na África. Este continente, o maior aglomerado mundial de países em desenvolvimento, estava se tornando muito importante para não ser representado na sigla Bric.
Fato é que não apenas um economista, mas também um acadêmico ligado a culturas mundiais diria não à pergunta inicial. Ele nos lembraria de que chineses e indianos não mantêm boas relações e que a Rússia, ainda amplamente desprezada por seus vizinhos ocidentais como “não europeia”, também não é vista como um verdadeiro país asiático por seus vizinhos orientais.
Quanto ao Brasil e África do Sul, esses dois países parecem estar tão distantes um do outro e dos “tradicionais” centros dos Estados Unidos e União Europeia, que suas localizações são encaradas como o principal obstáculo para suas indústrias de turismo.
Ainda assim, os líderes dos Brics, por certo pessoas ocupadas, têm dado um jeito de convocar cúpulas anuais. Seus ministros de Assuntos Exteriores e outros diplomatas se encontram com mais frequência ainda e conseguem sair das reuniões com declarações conjuntas – mesmo com a falta de entusiasmo da China na adesão permanente da Índia no Conselho de Segurança da ONU. Em suma, o que une esses gigantes tão diferentes?
A resposta é – o descontentamento com as políticas dos tradicionais líderes do mundo. Mesmo as datas dos dois encontros recentes do Brics são sugestivas. O primeiro, na ilha chinesa de Hainan, aconteceu durante a crise na Líbia. O segundo, em Nova Déli, preocupou-se, entre outras coisas, com os desdobramentos na Síria.
Ficou evidente durante a cúpula do Brics em Hainan que o bloco não compartilha a mesma euforia predominante no Ocidente em relação à “Primavera Árabe”, enxergando nela mais problemas do que ganhos futuros.
Quando Washington, Bruxelas e outras capitais europeias estavam aplaudindo a queda de Mubarak no Egito e estimulando insurgentes na Líbia, a declaração do Brics sobre o assunto pareceu um balde de água fria atirado sobre uma multidão eufórica.
Encontro em 2011: Países do BRICS condenam ataques na Líbia e defendem diálogo
Na ocasião, Jacob Zuma, presidente da África do Sul, levou a fundo uma iniciativa da União Africana para alcançar uma solução negociada entre Gaddafi e seus inimigos, expressando “grande preocupação” sobre as consequências do conflito no Norte Africano. Observe: isso aconteceu na primavera de 2011 – quando a moda era festejar a “vitória da democracia”.
A contínua guerra de milícias na Líbia e os desdobramentos problemáticos no Egito com perseguições anticristãos, bem como as tensões entre islamistas e o exército, provaram, ao menos, a validade de algumas das preocupações apresentadas pelos países do Brics.
A última cúpula do grupo em Nova Déli aconteceu com a Rússia e China enquanto a chefe da diplomacia norte-americana, Hillary Clinton, criticava ambos os países por serem o principal obstáculo no caminho da paz e democracia na Síria.
Infelizmente já ouvimos isso antes: na Líbia, o consentimento russo e chinês em uma resolução mal redigida pelo Conselho de Segurança da ONU levou a uma pesada intervenção ocidental na Síria. Diante desse histórico, existem algumas razões pelas quais Moscou e Pequim preferem ver Hillary Clinton descontente a presenciar uma repetição dos fatos.
Portanto, é exatamente o intervencionismo do Ocidente que une essas diferentes nações e cimenta a parceria dos Brics melhor do que as velhas ilusões de esquerda, de alguma forma presentes em todos esses países durante o século 20.
Aliás, até mesmo o nosso passado trágico comunista é de vez em quando usado pelo Ocidente como uma artimanha para diminuir a legitimidade da Rússia e da China no cenário mundial – como se crimes de Mao ou de Stálin tivessem produzido novas gerações de russos e chineses relativamente inferiores à nova prole de letões, por exemplo.
Na verdade, as políticas assumidas pelos EUA e União Europeia tornaram-se mais um motivo para a Rússia e a China – dois países cujos interesses são mais conflituosos do que do que, digamos, os interesses objetivos da Rússia e dos países da UE – ficassem lado a lado em questões como a Síria ou a ex-Iugoslávia.
O intervencionismo ocidental não se limita, contudo, aos casos da Líbia ou Síria. A presidente Dilma Rousseff expressou recentemente seu repúdio à política cambial de Washington – a desvalorização do dólar limita as exportações brasileiras e de outros países em desenvolvimento para os EUA.
Como resposta, a presidente do Brasil foi tratada com certo descaso durante sua recente visita a Washington.
Fora isso, a recusa de Obama em rever a possibilidade de suspender o bloqueio econômico a Cuba – anunciada durante a recente Cúpula das Américas, em Cartagena, na Colômbia – provocou a indignação não só do Brasil, mas de todos os países latino-americanos.
O presidente da Colômbia se viu obrigado a fazer uma viagem especial a Havana para pedir desculpas pessoalmente ao presidente de Cuba, Raúl Castro.
No que diz respeito às “guerras cambiais”, eis aqui as estatísticas: se o Real do Brasil cresceu 2% em relação ao dólar, o rublo da Rússia saltou 9,2%. Não é à toa que a Rússia não exporta nada para os EUA.
Isso significa que o Brasil, juntamente com a Rússia, Índia e China, não deseja uma democracia para Cuba ou Síria? Obviamente queremos um sistema justo para esses países, não somos menos humanistas que nossos vizinhos ocidentais.
Mas não queremos que o modelo seja “exportado” por meio de intervenções militares e “salários” norte-americanos para incentivar as deserções de soldados sírios – uma possibilidade discutida durante a recente cúpula dos “amigos da Síria” em Istambul.
Com tais “amigos”, como os quais podemos ver em Istambul, quem precisa de inimigos? É por isso que os diferentes países do Brics tornam-se amigos de verdade em momentos de necessidade real.
Dmítri Babitch, analista político
Título original: Antídoto para as intervenções ocidentais
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