Brasil: O golpe e a farsa do apoio popular

Não é de estranharmos, então, que o clamor por uma intervenção militar, uma nova face do golpe de 2016, se torne cada vez mais frequente
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‘O golpe se fez atendendo a uma parcela minoritária, mas com poder econômico, inconformada com as reformas em curso’

Uma das lendas sobre a ditadura militar no Brasil reza que o golpe ocorreu porque a população pediu. Recentemente foram resgatadas pesquisas do Ibope que indicavam grande popularidade de João Goulart, bem como uma ampla aceitação da população às reformas de base propostas na época.

O golpe se fez atendendo a uma parcela minoritária, mas com poder econômico, inconformada com as reformas em curso. Minoria raivosa e ruidosa. Aliás, só poderia ser assim, porque se os artífices do golpe tivessem, de fato, apoio popular majoritário, eles não necessitariam desse expediente; bastaria a eles, aguardar a eleição e trocar o comando do governo.

Os golpes se fazem, sim, contra a vontade popular e todo papo que tenta dizer que estão expressando o sentimento popular é balela, ingenuidade ou mentira. Cortemos, agora, para o período atual. Dilma Rousseff foi deposta em 2016, em movimento liderado pelos derrotados nas eleições de 2014, que não aceitaram o resultado da decisão popular e desencadearam, imediatamente após a divulgação do resultado do pleito, movimento com vistas ao seu impeachment.

Alegou-se como motivo as chamadas “pedaladas fiscais”, recurso utilizando por muitos governadores de Estado, sem que houvesse sanção. Na prática, um golpe que cassou, além do mandato presidencial, o voto de mais de 54 milhões de brasileiros.

Ao mesmo tempo, continuou em curso, intensa cassada midiática e jurídica para impedir que Luiz Inácio Lula da Silva possa ser candidato a presidente em 2018, o que culminou com sua prisão em abril deste ano. Prisão comemorada, em frenesi, pela direita brasileira.

Ela acreditava ser o final de uma espécie de filme mocinho, com o bandido preso e humilhado publicamente. No entanto, Lula, que era, então, o candidato preferido pela população para a eleição presidencial de 2018, não despencou na sua preferência. Ao contrário, mesmo limitado a 15m² de cela, e praticamente incomunicável, continuou aumentando sua popularidade. Hoje seria eleito no primeiro turno.

Mais parece o herói épico, a superar provações, para voltar redimido e engrandecido ao convívio dos seus. Para expulsar os usurpadores, que hoje se banqueteiam, se lambuzam e se locupletam no poder.

A memória do que foram os governos petistas, especialmente os dois mandatos de Lula, é seu escudo principal, inviolável à artilharia midiática e jurídica. Memória que se fortalece, quando comparado ao antigoverno de Michel Temer.

Lula dificilmente poderá ser candidato. Mas se somarmos à sua popularidade o fato de, apesar de todo antipetismo disseminado, o Partido dos Trabalhadores ser hoje aquele com maior aceitação entre os brasileiros, de possuir, entre seus membros, quadros qualificados e combativos, bem como uma militância que recobrou sua segurança e entusiasmo, fica bastante evidente que um candidato de esquerda, ou centro-esquerda, tem ampla possibilidade de vencer as eleições presidenciais que se avizinham.

Não é de estranharmos, então, que o clamor por uma intervenção militar, uma nova face do golpe de 2016, se torne cada vez mais frequente. Todo esse nervosismo que se vê hoje não é por causa da corrupção, da greve dos caminhoneiros e da crise de abastecimento ou qualquer outra coisa. Não. O problema são dois dedos do Lula. O que perdeu, e que marca sua origem e trajetória de trabalhador, identidade cuja passagem pelo poder soube honrar.

E outro, o indicador, que, de dentro da cela onde está, pode levantar e apontar um herdeiro político. É somente por isso que, tendo clareza ou não, essa parcela ruidosa e raivosa da população pede, novamente, intervenção militar. Se fosse maioria, não teria problema em aguardar o mês de outubro.

Título original: O golpe e a farsa do apoio popular

Carta Capital


 

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Publicado por em jun 15 2018. Arquivado em 4. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

1 Comentário para “Brasil: O golpe e a farsa do apoio popular”

  1. Jose Muniz

    Se foi ou não golpe. a verdade é

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