A Síria e a intensificação súbita da rivalidade entre EUA e Rússia

 

 

 

A impressão geral que Lavrov transmitiu é tríplice. Uma, em termos imediatos, é que se pode esperar uma intensifiação agravada dos combates na Síria devido às tentativas dos EUA de criar novos fatos sobre o terreno– como o apoio à milícia curda e ainda filiados a al-Qaeda e combatentes do Estado Islâmico – assim como de fazer recuar a Rússia, o Irã e o governo sírio.

Em segundo lugar, a Rússia conclui que a mudança na estratégia geral dos EUA tem como objetivo balcanizar a Síria. (Posteriormente, ao falar com os jornalistas em Moscou, Lavrov também chamou a atenção para a presença de mercenários e das Forças Especiais da França e Grã-Bretanha no nordeste da Síria trabalhando em conjunto com as forças estadunidenses na implementação da agenda americana para criar zonas de influência).

Em terceiro lugar, o diálogo entre Moscou e Washington em relação à Síria chegou em um beco sem saída. Lavrov especificamente advertiu Washington de que este está “brincando com fogo” na Síria, indicando que a estratégia dos EUA se deparará com uma resistência.

Duas outras características da conferência de Moscou são que, primeiro, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamad Javad Zarif, tomou parte nela; e, segundo, o evento também destacou um papel mediador russo para acalmar as tensões entre o Irã e a Arábia Saudita.

Zarif disse a Lavrov em reunião em Moscou que Teerã procura a ajuda da Rússia na resolução de conflitos intra-regionais no Oriente Médio muçulmano. Posteriormente, Zarif postou na sua conta oficial no Twittter: “Com a perspectiva estratégica sóbria da Rússia e sua crescente influência na Ásia ocidental, ela pode desempenhar um papel instrumental para ajudar em uma mudança de paradigma no Golfo Pérsico baseado no diálogo e na inclusão”.

Assistiram à conferência delegados não oficiais de vários países do Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita. Enquanto isso, o rei Abdullah da Jordânia efectuou uma “visita de trabalho” à Moscou e encontrou-se com Putin. No dia anterior, Lavrov havia falado no telefone com o seu homólogo egípcio, Sameh Hassan Shoukry. Putin também telefonou ao presidente turco Recep Erdogan. A Síria foi o foco de todos esses diálogos.

A estratégia russa será persuadir estados regionais importantes que têm sido aliados regionais dos EUA – a Arábia Saudita e a Jordânia, em particular – a não se reincorporarem no conflito na Síria, alimentando uma nova onda de combates. Se a abordagem tiver êxito, os EUA podem ficar em desvantagem com a falta de apoio regional para avançar com a via militar.

Contudo, embora os laços da Rússia com a Arábia Saudita tenham se fortalecido apreciavelmente nos últimos anos, a capacidade de Moscou para intermediar uma aproximação saudita-iraniana está sendo testada. A Síria continua a ser uma importante fonte de rivalidade entre a Arábia Saudita e o Irã. E a ironia é que, finalmente, a administração Trump está fazendo o que a Arábia Saudita queria que a anterior administração Obama fizesse, pressionar por uma agenda aberta de “mudança de regime” na Síria através de métodos coercivos.

Na percepção saudita, a Rússia sofreu recentemente uma série de reviravoltas na Síria. Resumindo a situação síria, Ghassan Charbel, editor-chefe do influente diário Asharq Al-Awsat , do establishment saudita, escreveu: “Nunca antes todas estas bandeiras, interesses, perigos, exércitos, milícias, divisões internas e choques regionais e internacionais se reuniram nos seus territórios (da Síria). Desde o sul até Idlib, Hmeimen e Afrin, a Síria é como um barril de pólvora. Ela está no cerne de um vasto e complexo conflito geo-estratégico que é impossível resolver com a força e onde as perdas e os ganhos serão difíceis de prever… As circunstâncias regionais e internacionais não parecem maduras para… conversações acontecerem. A tragédia síria está aberta às mais perigosas possibilidades”.

A tendência saudita será esperar e observar para onde sopram os ventos. Por outro lado, a guerra no Iêmen permanece a prioridade número um saudita e Riad procura um papel russo no término daquela guerra pela alavancagem da sua influência junto ao Irã.

* analista político indiano

Fonte: Resistir

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Publicado por em fev 27 2018. Arquivado em TÓPICO II. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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