A mídia está criando um clima internacional para justificar intervenção estrangeira na Venezuela

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Seminário em São Paulo debateu a situação no país caribenho e a imagem veiculada pelos meios de comunicação

Eduardo Vasco, Pravda.ru

A Venezuela voltou a ser manchete nos jornais de todo o mundo com a nova fase da crise política abatida sobre o país nos primeiros meses deste ano.

De modo similar aos acontecimentos do início de 2014, a oposição voltou às ruas com protestos violentos. Na mídia internacional, as manifestações são apontadas como pacíficas e motivadas pela crise econômica, pela falta de liberdade de expressão e pelo repúdio popular ao governo, considerado autoritário e opressor.

Entretanto, essa imagem foi desafiada por alguns brasileiros que viajaram à Venezuela recentemente e contaram o que viram por lá, além de terem explicado o contexto político, social, econômico e internacional da crise venezuelana.

“Existe uma manipulação das imagens e dos discursos muito intensa e massiva” na mídia internacional, avaliou Paola Estrada, representante da ALBA Movimentos, entidade que reúne movimentos populares ligada à Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA).

Segundo ela, a repetição de imagens de violência supostamente cometida pelas forças de segurança da Venezuela contra marchas da oposição é uma estratégia midiática para desestabilizar o governo do presidente Nicolás Maduro. “A mídia está criando um clima internacional para justificar uma intervenção estrangeira”, afirmou durante o seminário “Venezuela – guerra midiática e Constituinte Popular”, realizado em São Paulo na última quinta-feira (25).

Mais de 50 pessoas morreram em meio à onda violenta naquele país em cerca de dois meses. Perícias, investigações e vídeos mostram que, ao contrário do noticiado pela imprensa, a maioria dos mortos não foi assassinada pela polícia ou pelo exército. Além disso, frequentemente são descobertas tramas de criminosos ligados a políticos da oposição, embora parte dos atos violentos não tenha sido contida pelo governo, como o acontecimento que chocou a população local esta semana: durante uma manifestação opositora nos arredores de Caracas, um grupo ateou fogo em um jovem de 21 anos, que sofreu queimaduras de 1º e 2º graus em 54% de seu corpo, além de ter sido perseguido, espancado e ferido com armas brancas.

Crise econômica

Também durante o debate, Estrada explicou que a crise econômica que o país vive há mais de três anos é fruto de uma “guerra econômica” desencadeada por grupos empresariais venezuelanos e estrangeiros para colocar a culpa no governo e assim tentar derrubá-lo.

Apesar da melhora dos índices econômicos e sociais em comparação com os governos anteriores, os presidentes Hugo Chávez e Nicolás Maduro ainda não conseguiram acabar com a dependência estrutural dos preços do petróleo pelo país. A Venezuela foi muito atingida pela crise internacional e pela queda dos preços do petróleo, principal riqueza do país.

Além disso, 35% do PIB depende da importação de produtos básicos, como farinha, café, açúcar, leite e carne, que são distribuídos por empresas privadas e que o Estado compra para repassar a preços acessíveis à população. No entanto, parte das empresas escondem esses produtos para vender a preços mais altos, evitando a regulação pelo governo, impulsionando um mercado paralelo.

No mercado paralelo também são fixados os preços dos produtos com uma grande desvalorização do bolívar (a moeda nacional) em relação ao dólar, o que faz com que haja dois índices diferentes para medir a inflação: o oficial e o paralelo, calculado e difundido em páginas web estrangeiras. Essa é a chamada inflação induzida, explanou Estrada.

Mesmo assim, o quadro não é o mesmo pintado pela mídia internacional – a partir da criação dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAPs), criados pelo governo em 2016 e nos quais a população organizada distribui os produtos a preço justo, o povo voltou a ter acesso a produtos básicos, apesar da “sabotagem” continuar, segundo ela. “O que a gente vê na TV é muito surreal”, disse, complementando: “Você anda pelas ruas e não é isso (filas e miséria) o que vê.”

Crise Política

Desde que a oposição conquistou a maioria na Assembleia Nacional, a partir da vitória nas eleições legislativas de 2015, a crise política se intensificou. Ao assumir a presidência da Casa, o deputado opositor Henry Ramos Allup, um dos principais adversários do chavismo, decretou a queda de Maduro em um prazo de seis meses.

A oposição, reunida na coalização intitulada Mesa de Unidade Democrática (MUD) tentou todos os meios para destituir o presidente do poder, esbarrando, no entanto, nas mobilizações populares pró-governo e no Judiciário, que segue fiel à Constituição – da mesma forma que as Forças Armadas.

“Ela sentiu os efeitos daquelas conquistas e valores que a Revolução Bolivariana defende e achou que poderia derrubá-la com um decreto desse tipo”, afirmou José Reinaldo de Carvalho, secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Ele se refere à decretação de vacância do cargo, emitida pela Assembleia Nacional após Maduro ter saído do país em uma viagem diplomática para negociar o aumento dos preços do petróleo com outros países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Tal decreto foi considerado inconstitucional e rechaçado pelos outros poderes do Estado.

No ano passado, o governo abriu um processo de diálogo com a oposição, no qual foram convidados para intermediar alguns ex-presidentes latino-americanos e europeus, além da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e o próprio Papa Francisco. Porém, a oposição acabou abandonando o diálogo, tanto por parte de seus representantes políticos pertencentes à MUD como pelos representantes civis – a Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção (Fedecámaras) e o Conselho Episcopal da Igreja Católica.

Com a finalidade de impedir uma guerra civil que estava se desenhando, Maduro convocou para o segundo semestre deste ano uma Assembleia Nacional Constituinte, na qual serão eleitos 540 representantes para aprimorar a atual constituição. Os candidatos não serão eleitos por partidos políticos, mas sim diretamente entre a população.

No decreto entregue esta semana ao Poder Eleitoral, é estabelecido que os seguintes setores representarão a sociedade nesse processo: trabalhadores, camponeses, pescadores, estudantes, pessoas com deficiência, povos indígenas, aposentados, empresários, comunas e conselhos comunais (organizações de base).

José Reinaldo destacou que a Constituinte, que será eleita por voto popular direto e secreto, é um mecanismo político para frear a violência opositora e encontrar o diálogo sem fazer concessões à oposição, uma vez que só o povo poderá decidir o que quer para o país.

Além disso, frisou que é um meio de aperfeiçoar a democracia na Venezuela, a democracia protagonista, que, segundo ele, é a própria essência chavista. “A revolução não se deixará derrotar”, concluiu.

Lembrando que 21 eleições foram realizadas em 17 anos, a última delas em 2015, Paola Estrada afirmou que a Venezuela tem um dos processos de democracia “mais avançados do mundo”, com instrumentos de democracia direta, a exemplo da Constituinte. “É um processo muito avançado de aprofundamento da democracia, da participação popular e da soberania nacional.”

Em sua análise, esse é justamente um dos motivos pelos quais o país, assim como alguns de seus vizinhos com governos progressistas, vem sofrendo “um processo de sangramento político” articulado por “grandes interesses do capital internacional e da direita na América Latina”.


 

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Publicado por em maio 27 2017. Arquivado em 2. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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